Dicas de leitura: O Ateneu, de Raul Pompéia


O Ateneu é um romance brasileiro narrado em primeira pessoa pelo personagem Sérgio, já adulto. Desta forma através das lembranças de Sérgio o personagem reconstrói por meio de reminiscências as quais chama de “Crônicas da Saudade” um período de sua vida em que estudou no tradicional e enérgico colégio Ateneu. 

Com uma narrativa rebuscada e imersiva, Sérgio se utiliza do Ateneu para recriar o comportamento humano de forma que a escola pudesse ser uma representação fiel da realidade. Assim, o Ateneu é uma espécie de microcosmo no qual se evidenciam a hipocrisia e a corrupção no seio da sociedade. Através de Sérgio, Raul Pompéia também se revela bastante crítico aos costumes, bem como apresenta as incoerências do sistema de ensino e da sociedade à época. Ambientado num país ainda monárquico, para muitos, o livro pode ser uma metáfora da queda da monarquia, simbolizada no romance pelo acontecimento  incendiário que ocorre no último capítulo. 

O livro, além desta representação microcósmica da realidade da nação, onde o autor acaba de fato distinguindo determinados grupos, também aborda assuntos pertinentes aos relacionamentos, como na tragédia provocada por  Angela, ou no encantamento dos garotos por D. Ema. 

No entanto, a maior profundidade quanto a relacionamentos é dedicada à questão da homossexualidade masculina, em que o próprio Sérgio acaba demonstrando incompreensão quanto a sua própria sexualidade – embora ele rechace Sanchez – e também na postura de Sanches, e especialmente Bento Alves, ambos homossexuais, porém de comportamentos diferentes. Pelo olhar de Sérgio a homossexualidade no Ateneu está muito presente, e talvez como o próprio narrador afirma, que tudo que ocorre no Ateneu, se repete do lado de fora de seus muros. Dessa forma, O Ateneu é meio que um espelho a refletir a sociedade, seus costumes, suas alianças interessadas, e especialmente a hipocrisia a direcionar todas as relações.

Como obra a ser analisada O Ateneu tem sido ao longo dos tempos de difícil caracterização. É o único romance do impressionismo brasileiro. Dentro do realismo a obra ainda consegue manter traços do barroco, como o rebuscamento, além de ser extremamente impressionista ao mergulhar a fundo nos pensamentos do narrador e transmitir isto ao leitor. O livro também mantém elementos da corrente do naturalismo, e aqui talvez a grande intenção do autor, já que há dentro do próprio romance a lembrança de um discurso proferido que é na verdade um grande e eloquente manifesto naturalista.

Sobre a narração

O Livro é narrado em primeira pessoa por Sérgio, um narrador segundo Friedman, autodiegético e se dá no tempo psicológico, isto tudo posto em um enredo opaco, impressionista e expressionista. A narrativa aparentemente linear tem esta linearidade quebrada em parcos momentos quando a memória de Sérgio precisa recorrer a períodos já passados além daqueles que ele já descrevera. Seus principais personagens são em grande parte redondos. Como protagonista temos Sérgio e como antagonista o próprio Ateneu que nada mais é que o reflexo dos costumes sociais da época. Entre os demais personagens de destaque, temos o diretor, Aristarco,  Angela, Sanches e Bento Alves;


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